Sabemos que o bacalhau, por Portugal, e em especial nas zonas rurais como as alentejanas, serviu como “remédio dos pobres”. Mesmo em 1731, Francisco Henriques, autor de receituários, já dizia que era “alimento dos pobres e dos rústicos”, ou seja, “próprio para pessoas que trabalham e se exercitão muyto”.
Há muitos séculos que as migas são um dos pratos mais tradicionais consumido no Alentejo, nomeadamente durante o Inverno. De facto, as migas, além de serem um prato bastante calórico, aproveitavam o pão já duro e velho. Juntas ao bacalhau, homens que se vergavam na jorna ganhavam, certamente, novas forças para a luta do dia seguinte. Já o toque temperado do poejo não é de estranhar, pois esta planta, que combaterá até gripes e problemas digestivos, pode ser facilmente encontrada por toda a região alentejana.
Depois de termos o bacalhau demolhado, cozemo-lo; entretanto, deixamos escorrer o bacalhau e removemos pele e espinhas. Guardamos a água da cozedura. Cortamos o pão em fatias finas e espalhamos folhas de poejo por cima, a gosto. Escaldamos rapidamente o pão na água que deve estar ao lume e que previamente cozeu o bacalhau (o pão aqui fica embebido, mas não aguado, ou seja, não deve haver água no fundo da tigela). Tapamos o recipiente e deixamos aprimorar por 10 minutos. Em seguida, juntamos o bacalhau desfiado e 2 ovos inteiros ao pão. Batemos tudo de forma a obter uma papa. Num tacho à parte, levamos dentes de alho esmagados a alourar em azeite. Retiramos pouco depois os alhos e juntamos a papa ao azeite, subimos o lume e vamos mexendo para “secar” todo o preparado, mas sem o deixar duro.
VVAA (2016). As melhores receitas de Bacalhau – Ideias para + de 100 refeições. Impala
Guedes, F. (2001). As 100 maneiras de cozinhar Bacalhau e outros peixes. Publicações Dom Quixote
Sobral, J. M.; Rodrigues, P. (2013) O “fiel amigo”: o bacalhau e a identidade portuguesa. Etnográfica 17 (3), p.619-649.
Henriques, F. F. (1731) Âncora Medicinal para Conservar a Vida com Saúde.





